Adhemar Gonzaga (1901-1978)

Biografia

Considerado uma das grandes personalidades da história do cinema brasileiro, o jornalista, pesquisador, critico, ator, roteirista, produtor e diretor cinematográfico Adhemar Gonzaga foi um apaixonado pelo cinema desde a infância. Inciciando-se como critico nofinal dos anos 10, logo se tornou um articulista regular de publicações como Palcos e Telas e Para Todos.

Adhemar Gonzaga ocupou a maior parte do seu tempo com atividades artísticas. Sempre se considerou um desenhista frustrado, desencorajado pela excelência de seus companheiros de redação, gente como J. Carlos, Kalixto, Luiz Sá. Na infância, passada na casa da rua André Cavalcanti, Rio de Janeiro, onde nasceu em 1901, brincava com as imagens recortadas da revista Tico-Tico. Foi o embrião do seu cineminha particular, logo ampliado com fotogramas de filmes, conseguidos junto a profissionais como João Stamato, vizinho de rua, ou com o dono do Cinema Íris, que seu pai financiava secretamente. A paixão pelo cinema cresceu, assim como seu primeiro arquivo particular sobre o assunto, o que assustou seus pais. A solução foi destruir o arquivo e mandá-lo para o colégio interno em São Cristóvão, bairro que escolheria para sediar seu futuro estúdio. Os estudos um pouco mais sistemáticos o aproximariam da escrita e do jornalismo, que praticava de forma amadora com a folha semanal O Colombo, sobre os acontecimentos de sua vizinhança. Mas a descoberta dentro da escola de um grupo de amigos igualmente apaixonados por cinema só fez crescer a paixão. Entre eles estava Pedro Lima, futuro companheiro nas campanhas da Revista Cinearte. O grupo fundou um cineclube, que na verdade consistia em um ponto de encontro para falar de filmes vistos no circuito comercial, e passou a se intitular de Big Four, em referência aos fundadores da United Artists.

A opção pelo cinema como arte seria importante no futuro, embora viesse a encontrar obstáculos de toda ordem. Uma outra paixão, o futebol, fixada em definitivo pela adoração pelo Flamengo, criava o intervalo necessário às preocupações cinematográficas.

Em 1920, recém saído da escola, ingressou no jornalismo, tornando-se um militante da causa do cinema brasileiro, assunto praticamente inexistente na imprensa da época. Com muita tenacidade frente às resistências, desconfianças e descréditos para com o tema, começa a inserir notas, fotos, comentários, críticas e pequenos artigos sobre os filmes e os profissionais de cinema em atividade no país. Conquista espaço próprio na revista Para Todos… e logra convencer o dono da Sociedade Anônima O Malho a investir em uma revista só de cinema, onde realçaria a produção brasileira e discutiria seus problemas e contradições. O sucesso de Cinearte foi imenso, chegando a vender cerca de cem mil exemplares semanais. Como diretor da revista pode coordenar uma verdadeira campanha em prol do cinema brasileiro, conseguindo criar um movimento e uma mentalidade razoavelmente coordenados que desaguariam na formação da classe e na criação de uma ideologia de defesa do filme brasileiro.

Ato contínuo e natural, ingressou na produção e direção cinematográficas com seus colegas de redação. Barro Humano foi concebido como uma espécie de modelo de produção conseqüente para o país, por suas preocupações temáticas, suas inovações técnicas, sua estratégia de lançamento. O filme foi um grande sucesso, transformando-se no ponto de inflexão de sua carreira.

O passo seguinte foi a criação de um grande centro de produção para transformar o panorama artesanal da área em uma atividade industrial. A construção dos estúdios da Cinédia a partir de 1930 na prática o afastaria da carreira diretorial, à qual voltaria apenas ocasionalmente. Enfrentou o desafio de dotar o país com o que havia de mais moderno em termos de infra-estrutura, equipamentos e insumos. Preocupou-se também com a formação dos técnicos e com a formulação de um star-system brasileiro, catapultando nomes como Carmen Miranda, Grande Otelo, Dercy Gonçalves e Marlene para o estrelato absoluto. Mais do que isso procurou se cercar dos melhores diretores, destacando-se a figura de Humberto Mauro, e de projetos que acentuassem o viés nacionalista, tão ao seu gosto.

Ao assumir casualmente a condução de Alô, Alô, Carnaval, transformou-o no protótipo acabado das relações entre a cultura brasileira e a cultura estrangeira, associando-as às classes populares e à elite, respectivamente. A verve carioca e a musicalidade esfuziante das marchinhas e sambas inspiraram o tom de alegria e doce crítica que perpassaria em seguida as chamadas chanchadas. Suas obrigações cotidianas, porém, o colocaram essencialmente como um produtor.

Após o insucesso dos primeiros trabalhos de longa metragem, procurou diversificar a linha de produção da companhia, indo do filme publicitário ao documentário de encomenda. No terreno principal concebeu duas estratégias, o grande espetáculo e a comédia musical popular, a ser lançada preferencialmente na época do carnaval. Insiste na qualidade do acabamento, não poupando esforços em termos de incorporação de novas técnicas, materiais e equipamentos, sendo responsável pela introdução da revelação automática, da copiagem contínua, dos efeitos especiais, da gravação sonora ótica, da mixagem, da maquiagem pancromática, dos refletores de tungstênio, da dublagem, da grua, e de muitos outros avanços.

Obtém grande repercussão com filme como Alô, Alô, Brasil, Bonequinha de Seda, Samba da Vida, 24 horas de Sonho, Berlim na Batucada e sobretudo O Ébrio, um dos filmes mais populares de toda a história do cinema brasileiro.

As dificuldades de produção e exibição, porém, são enormes e se acentuam em contextos como a segunda guerra mundial, gerando dívidas que o levarão a vender o estúdio original no início dos anos 50. Impressionado com a criação de novos estúdios em São Paulo, muda-se para lá, acreditando poder encontrar um ambiente favorável à reabertura da empresa.

Decepcionado com os resultados, interessa-se de forma crescente pela pesquisa histórica, projetando uma História do Cinema Brasileiro, da qual só escreve os primeiros capítulos. Volta para o Rio de Janeiro e reabre o estúdio no distante bairro de Jacarepaguá. Lá alterna a condução da locação dos novos espaços com a organização de seu arquivo pessoal. Torna-se referência na área de pesquisa e contribui com a iconografia e as legendas do livro 70 Anos de Cinema Brasileiro.

No fim dos anos 60 dirige seu último longa metragem, o nostálgico Salário Mínimo. Dedica-se nos anos 70 a restaurar alguns dos clássicos da Cinédia. Em seus últimos anos de vida retorna ao jornalismo, assinando uma coluna diária no jornal O Dia. Faleceu em 1978, deixando um legado de paixão e obstinação pelo cinema brasileiro que o transformaram em um dos fundadores de nossa cinematografia.

Filmografia

:: Filmografia como Diretor ::

1970 :: Salário Mínimo
1935 :: Alô, Alô, Carnaval
1929 :: Barro Humano

:: Filmografia como Produtor ::

:: Samba da Vida
:: 24 horas de Sonho
1950 :: Anjo do Lodo
1949 :: Pinguinho de Gente
1946 :: O Ébrio
1944 :: Berlim na Batucada
1940 :: Pureza
1938 :: Alma e Corpo de uma raça
1936 :: Bonequinha de Seda
1935 :: Alô, Alô, Brasil
1933 :: Canga Bruta
1931 :: Mulher
1929 :: Barro Humano

:: Filmografia como Ator ::

1935 :: Alô, Alô, Brasil

Bibliografia

Fontes de Referência

Livros:

ALMEIDA, Paulo Sérgio; OLIVEIRA, José Maria de. (org.). Quem é Quem no Cinema. Rio de Janeiro: Iluminuras, 2003.

GONZAGA, Adhemar; GOMES, Paulo Emílio Salles. 70 Anos de Cinema Brasileiro. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1966.

GONZAGA, Alice. 50 anos de Cinédia. Rio de Janeiro: Editora Record, 1987.

GONZAGA, Alice; AQUINO, Carlos. Gonzaga por ele mesmo. Rio de Janeiro: Record, 1989.

Internet:

http://www.filmeb.com.br/ – Filme B – Brasil

Print Friendly, PDF & Email

Sobre História do Cinema Brasileiro

Site do História do Cinema Brasileiro.