Alex Viany (1918-1992)

Biografia

Almiro Viviani Fialho, em arte mais conhecido como Alex Viany, foi um cineasta, roteirista, jornalista, escritor e crítico de cinema brasileiro nascido no subúrbio carioca, bairro de Cascadura, no dia 04 de novembro de 1918. Filho do médico Américo Gomes Fialho e da professora Elisabetta Viviani Fialho, Alex Viany passou uma infância com dificuldades econômicas para a família, devido à cegueira precoce de seu pai.

O jovem Almiro iniciou-se no jornalismo cinematográfico através de um concurso intitulado O Que Pensam os Fãs?, promovido pelo cronista Pedro Lima em 1934 no Diário da Noite (RJ), órgão dos Diários Associados. Desde então adotou o pseudônimo de Alex Viany, corruptela americanizada de Almiro Viviani, pois admirava extremamente o cinema hollywoodiano. Após uma passagem pela revista Carioca, na qual manteve uma coluna respondendo dúvidas sobre cinema dos leitores, Viany transferiu-se em 1942 para O Cruzeiro. Nesse mesmo ano casou-se com Elza Moutinho Veiga, que adotou o nome Elza Veiga Fialho. Buscando equilibrar o orçamento familiar, Viany traduzia textos em inglês e trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda (D.I.P.).

Em 1945 o casal viajou para Hollywood, onde Alex Viany assumiu o posto de correspondente de O Cruzeiro, a principal revista semanal brasileira de então. Além disso, também traduzia para o português filmes americanos. Durante a estadia nos Estados Unidos, aproveitou para aprofundar seus conhecimentos cinematográficos, através do contato com filmes, livros e revistas de difícil acesso no Brasil, das visitas aos estúdios, de dois cursos de cinema – nos quais teve professores como o diretor Edward Dmytryk e o também diretor e roteirista Herbert Biberman – e da amizade com Hans Winge e Vinicius de Moraes – então vice-cônsul brasileiro em Los Angeles.

Paulatinamente desiludiu-se com o american way of life e com o sistema de produção dominado pelos grandes estúdios, passando a defender idéias políticas de esquerda e atentando para o neo-realismo italiano, o documentário e os filmes B produzidos por Val Lewton. Devido à importância de O Cruzeiro e ao estilo leve e informativo dos artigos de Viany, seu nome tornou-se conhecido na imprensa brasileira.

Quando o casal voltou ao Rio de Janeiro em dezembro de 1948, Alex Viany trazia na bagagem o projeto da revista Filme, desenvolvido com Vinicius de Moraes. No ano seguinte são publicados os dois únicos números da revista. Passou a colaborar então em vários periódicos como A Cena Muda, Revista do Globo e Correio da Manhã, além de manter um programa semanal sobre cinema na Rádio MEC. Ambicionando passar para a produção, escreveu em 1949 o roteiro Última Noite, nunca filmado.

Durante a ebulição das tentativas de cinema industrial em São Paulo, Viany mudou-se para esta cidade ao ser convidado por Mario Civelli para integrar o Departamento de Roteiros da Companhia Cinematográfica Maristela, corria o ano de 1951. Após poucos meses foi demitido em razão de uma crise na empresa. Em São Paulo conheceu Carlos Ortiz, Ortiz Monteiro, Nélson Pereira dos Santos, Galileu Garcia e Roberto Santos, entre outros simpatizantes do Partido Comunista Brasileiro, passando a alinhar-se com o stalinismo. Este grupo, que divulgava suas idéias através da revista cultural Fundamentos, organizou debates que discutiam os problemas econômicos e artísticos do cinema brasileiro, opondo-se à Vera Cruz. O processo culminou no I Congresso Paulista do Cinema Brasileiro (1952) e nos I e II Congressos Nacionais do Cinema Brasileiro (1952 e 1953, respectivamente), nos quais Alex Viany teve ampla participação.

Ao voltar ao Rio de Janeiro em 1952, dirigiu Agulha no Palheiro, seu longa-metragem de estréia, cujo elenco é composto por Fada Santoro, Roberto Batalin, Jackson de Souza, Sara Nobre, Dóris Monteiro e Hélio Souto. O roteiro foi publicado em 1983 pela Universidade Federal do Ceará e pela CAPES. O enredo gira em torno de uma jovem interiorana que vem ao Rio de Janeiro procurar o rapaz que a engravidou, na cidade grande a moça é ajudada por uma simpática família suburbana. Com essa fita o diretor pretendia mostrar a simplicidade e dignidade do povo, além de retratar o seu cotidiano. Logo em seguida, 1953, foi chamado para dirigir Rua sem Sol, mistura de melodrama com pitadas de policial. O filme tem no elenco Glauce Rocha, Dóris Monteiro, Modesto de Souza, Carlos Cotrim e Gilberto Martinho.

Nessa época, Viany trabalhou intensamente na produção cinematográfica: assistente de direção em Aglaia (de Ruy Santos, filme inacabado), co-roteirista de Carnaval em Caxias (de Paulo Vanderley, 1953), diretor de produção em O Saci (de Rodolfo Nanni, 1952) e Balança Mas Não Cai (dir: Paulo Vanderley, 1953). Escreve com o amigo Alinor Azevedo pelo menos dois roteiros de grande importância, Feitiço da Vila (1954) e Estouro na praça (1957), ambos infelizmente nunca filmados. Dirigiu ainda, em 1955, Ana, episódio brasileiro do longa-metragem A Rosa dos Ventos (Die Windrose), produzido pela Alemanha Oriental e organizado por Joris Ivens. Ana, cuja história é de Jorge Amado, tem como principais atores Miguel Torres, Aurélio Teixeira e Vanja Orico, tematizando a migração de retirantes nordestinos e a exploração a que eles estão sujeitos.

A partir de 1954, Viany voltou a militar de forma contínua na imprensa, escrevendo ao longo da década em vários periódicos: Manchete, Jornal do Cinema, Shopping News (RJ), Para Todos, Leitura e Senhor. Além disso, fez as notas para a primeira edição brasileira de Argumento e Roteiro (1957), de Umberto Barbaro, e a segunda edição de O Cinema (1956), de Georges Sadoul. Em 1959, pelo Instituto Nacional do Livro, publicou Introdução ao Cinema Brasileiro. O livro foi reeditado em 1987, uma co-edição Alhambra-Embrafilme, e em 1993 pela Revan. A Introdução ao Cinema Brasileiro teve grande repercussão no meio da cultura cinematográfica e também junto aos jovens cineclubistas e críticos que pouco depois integrariam o Cinema Novo.

Com o aparecimento do Cinema Novo, Viany encontrava-se visceralmente ligado ao movimento, divulgando-o e discutindo-o em artigos e debates. O seu terceiro longa-metragem, Sol Sobre a Lama, de 1962, está impregnado de idéias estéticas e políticas características do Cinema Novo. A história trata de uma comunidade de feirantes que enfrenta a elite econômica de Salvador, a maior inspiração artística do filme é a produção moderna japonesa, especialmente Nagisa Oshima. Dentre os principais intérpretes: Geraldo del Rey, Othon Bastos, Glauce Rocha, Gessy Gesse, Teresa Raquel e Antônio Pitanga. Entretanto, o resultado final não agradou a Viany, pois o filme foi remontado à sua revelia pelos produtores.

Nesse período, integrou o C.T.I. (Comando dos Trabalhadores Intelectuais), formado, entre outros, por Ênio Silveira, Dias Gomes, Nélson Werneck Sodré e Álvaro Lins. O C.T.I. era um grupo de esquerda que apoiava as reformas de base do governo João Goulart.

Nos anos 60, Viany passou a trabalhar na Civilização Brasileira como editor da coleção Biblioteca Básica de Cinema, que publicou títulos importantes de autores nacionais e estrangeiros. Também integrou a redação da Revista Civilização Brasileira, através da qual promoveu discussões sobre os rumos do Cinema Novo após o golpe militar de 1964. No campo da crítica, atuava no conceituado Jornal do Brasil.

Alex Viany voltou à produção em 1974, dirigindo o curta-metragem A Máquina e o Sonho, documentário sobre Ludovico Persici, pioneiro do cinema brasileiro que inventou uma máquina que filmava, revelava e projetava. Dirigiu ainda os curtas documentários Humberto Mauro: Coração do Bom (1978) e Maxixe, a Dança Perdida (1979). No primeiro homenageia aquele que seria, ao seu ver, o maior cineasta brasileiro, no outro investiga a importância deste ritmo musical. Ampliando o diálogo com a obra de Mauro, realizou o longa-metragem A Noiva da Cidade, cuja idéia original é do cineasta mineiro. O filme, de 1978, teve uma complicada produção e pouca repercussão de público. No elenco estão Elke Maravilha, Jorge Gomes, Grande Otelo, Paulo Porto e Betina Viany – filha de Alex. O universo da fita é tipicamente de Humberto Mauro, narrando a história de uma famosa atriz que volta para a sua pequena cidade natal no interior de Minas Gerais e é seduzida pelo vento.

Desenvolvendo suas atividades como historiador, Viany escreveu textos de relevo como O Velho e o Novo (1965), Quem é Quem no Cinema Novo Brasileiro (1970) e Dois Pioneiros: Afonso Segreto e Vito di Maio (1976). No primeiro, historiciza as raízes do Cinema Novo e quais as perspectivas diante do golpe militar de 1964, o segundo é composto de pequenas biofilmografias dos principais componentes do movimento e o terceiro investiga a introdução do cinema no Brasil. Também foi editor de cinema das enciclopédias Delta-Larrousse e Mirador e organizou os livros Humberto Mauro: Sua Vida / Sua Arte / Sua Trajetória no Cinema (1978) – que reúne artigos sobre o diretor, sua filmografia e depoimentos – e Minhas Memórias de Cineasta (1978) – no qual Luiz de Barros rememora sua trajetória. Além disso, nos anos 70 e 80 auxiliou inúmeras pesquisas sobre cinema brasileiro e realizou para o Setor de Rádio e Televisão da Embrafilme entrevistas com personalidades ligadas à nossa produção cinematográfica.

Alex Viany faleceu no Rio de Janeiro no dia 16 de novembro de 1992, com 74 anos. Seu importante arquivo pessoal encontra-se depositado na Cinemateca do MAM-Rio. Postumamente, José Carlos Avellar organizou o livro O Processo do Cinema Novo, publicado em 1999 pela Aeroplano, volume que reúne artigos de Viany e entrevistas realizadas por ele com os principais diretores daquele movimento cinematográfico.

Autor: Arthur Autran – professor da Universidade Federal de São Carlos

Filmografia

:: Filmografia como Diretor ::

1962 :: Sol Sobre a Lama
1955 :: A Rosa dos Ventos (Die Windrose) (Episódio: Ana)
1953 :: Rua sem Sol
1952 :: Agulha no Palheiro

:: Filmografia como Assistente de direção ::

19 :: Aglaia, de Ruy Santos (Inacabado)

:: Filmografia como Roteirista ::

1957 :: Estouro na praça (não filmado)
1954 :: Feitiço da Vila (não filmado)
1953 :: Carnaval em Caxias (Paulo Vanderley, 1953)

:: Filmografia como diretor de produção ::

1953 :: Balança Mas Não Cai, de Paulo Vanderley
1952 :: O Saci, de Rodolfo Nanni

Bibliografia

Livros:

Internet:

ALEX VIANY – SITE OFICIAL. Disponível no endereço: https://www.alexviany.com.br
HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO. Alex Viany. Disponível no endereço: http://www.historiadocinemabrasileiro.com.br/alex-viany/

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