Cinematográfica Maristela

Histórico

A Companhia surgiu em 1950 a partir do empreendedorismo de Mário Audrá Junior, o Marinho, filho de uma rica família paulistana, do ramo da indústria têxtil, que sonhava em ser um produtor de cinema naqueles anos em que o neorrealismo italiano seduzia as plateias em todo o mundo.

A Cinematográfica Maristela foi criada em São Paulo em 1950, tendo à frente o produtor Mário Audrá (filho de um industrial) e num contexto de uma grande cidade latina do pós-guerra, impulsionada pela indústria, vivendo um intenso e definitivo movimento cultural em vários setores. Mário Audrá tinha como companheiros de projeto nomes como Ruggero Jacobi, Carlos Alberto Porto e Mario Civelli.

Por força do hábito (do preconceito), a Maristela ficou bem conhecida nos meios do cinema como a prima-menor da Vera Cruz, a produtora que de certo modo seguia o modelo industrial hollywoodiano. A Vera Cruz produziu e durou mais. Mas a Maristela tem uma produção que é uma ilha fértil na história do cinema brasileiro. Seus estúdios se localizavam no bairro de Jaçanã e lá atuaram centenas de atores e técnicos, nomes como Alberto Cavalcanti rodando o seu primeiro filme no Brasil; Procópio Ferreira, Ana Esmeralda, Henriette Morineau, os fotógrafos, os diretores Ruggero Jacobi (sócio da empresa), Tonia Carrero, Odete Lara, Jayme Costa, Nydia Licia.

A propósito de todo empenho, obstáculos, sucessos e fracassos, a Maristela ainda tem muito o que ensinar. Claro que a partir de seus filmes, mas também de sua história, lembrada numa frase conclusiva pelo próprio produtor Mário Audrá em seu livro Memórias de um Produtor: “Com o sucesso da Maristela, volto a afirmar, o cinema brasileiro teria tomado outros rumos. Embora esteja minha insistente afirmativa possa parecer pretensiosa, a verdade é que ela está fundamentalmente baseada em fatos concretos. O sucesso da Maristela em sua primeira fase iria incentivar os produtores independentes a realizarem seus filmes em nossos estúdios, e assim certamente eliminaria uma praga que sempre existiu no cinema brasileiro e que perdura até hoje, sem cuja superação o cinema jamais terá uma existência autosustentada, a descaracterização da função do produtor”.

A Maristela realizou ainda filmes de talentos como Nelson Pereira dos Santos, Luiz Sérgio Person e Roberto Santos. Durou apenas oito anos, mas deixou um legado que está sendo retomado não só com essa retrospectiva, mas novos projetos, inclusive de produções.

Entre os filmes produzidos pela Companhia, estão Presença de Anita (que deu origem à série homônima da Rede Globo), Meu Destino é Pecar (primeira adaptação de Nelson Rodrigues para o cinema), O Comprador de Fazendas, Mãos Sangrentas e a chanchada A Pensão de Dona Stela, onde Adoniran Barbosa está presente com suas composições e também como ator.

Com filmes de baixo custo, a Companhia Maristela não investia em grandes produções. A ideia era fazer dois ou três filmes por ano e alugar os estúdios para outras produtoras. Segundo a família detentora da Maristela, Roberto Marinho, o fundador da TV Globo, chegou a se interessar pelos estúdios para instalar a futura TV Globo, mas a proposta de compra foi recusada pelo proprietário.

Recentemente seus filmes foram restaurados e em cópias novas. A Maristela ficou marcada por realizar filmes que nem eram extremamente soltos como na chanchada nem deliberadamente voltados para a sofisticação, como se reconhece na história da Vera Cruz. E deixou um patrimônio e um conhecimento.

Filmes Produzidos

Abaixo, seguem os títulos e as respectivas sinopses dos filmes:

Presença de Anita (Ruggero Jacobi, 1950).
Estrelando as atrizes Antoinette Morineau (filha) e Henriette Morineau (mãe), é um drama psicológico baseado no mesmo livro de Mário Donato que também foi adaptado posteriormente na minissérie da Rede Globo, com Mel Lisboa.

Suzana e o Presidente (Ruggero Jacobi, 1950).
Comédia romântica cuja trama gira ao redor de moças que trabalham fora de casa numa época em que isso ainda era algo pouco frequente. O filme ainda traz imagens raríssimas do jogador da seleção brasileira de futebol e inventor da “bicicleta”, Leonidas da Silva, o “Diamante Negro”.

Meu destino é pecar (Manuel Peluffo, 1951).
Primeira adaptação para o cinema de uma obra do dramaturgo Nelson Rodrigues, esse filme leva às telas o folhetim em que ele assinava com o pseudônimo Suzana Flag. O filme foi uma co-produção internacional com o México, sendo dirigido por um diretor mexicano.

O Comprador de fazendas (Alberto Pieralisi, 1951)
Adaptação de um conto de Monteiro Lobato que traz como protagonista o grande astro Procópio Ferreira. A música da trilha-sonora foi composta pelo rei do baião, Luiz Gonzaga, que a interpreta no filme.

O Cinema Nacional em Marcha (Jacques Deheinzelin, 1951)
Documentário que retrata uma visita aos estúdios da Cinematográfica Maristela, desvendando para o público os mistérios que envolvem a realização de um filme. São mostrados os equipamentos de fotografia e som, os depósitos de negativos, a produção dos cenários, os sets de filmagens, os camarins e salas de maquiagens, até os escritórios e a sala de projeção.

Simão, o caolho (Alberto Cavalcanti, 1952).
Primeiro filme dirigido no Brasil pelo grande diretor Alberto Cavalcanti, o único brasileiro que possuía renome no cinema internacional por sua participação nos movimentos do cinema poético francês e no documentarismo inglês. Trata-se de uma comédia de costumes misturada com sátira política que se tornou um clássico do cinema brasileiro. Estrelado pelo grande cômico Mesquitinha.

O canto do mar (Alberto Cavalcanti, 1953)
No litoral nordestino, que acolhe migrantes do sertão à espera de viagem para o Sul, o drama de uma família em desestruturação devido a problemas financeiros e psicológicos motivados pela miséria.

A Mulher de verdade (Alberto Cavalcanti, 1954)
Uma enfermeira se passa por solteira quando na verdade leva uma vida dupla e é casada com dois homens, um pobre e outro rico. No elenco o comediante Colé.

Ana (Alex Viany, 1955)
Escrito por Jorge Amado, o filme trata da migração de retirantes nordestinos e a exploração a que eles estão sujeitos através de história de Ana, que viaja num pau-de-arara em busca de uma vida melhor.

Mãos sangrentas (Carlos Hugo Christensen, 1955)
Co-produção com Argentina e México dirigido pelo argentino Carlos Hugo Christensen, que realizou outros importantes filmes no país. Trata-se da dramatização da fuga real de detentos do presídio da Ilha de Anchieta, ao largo de Ubatuba. O filme provocou grande impacto por seu realismo e violência, sendo exibido no prestigiado Festival de Veneza. No elenco, a atriz Tônia Carreiro no auge de sua beleza.

Quem matou Anabela? (Didier Hamza, 1956)
Em uma trama no estilo dos romances de Agatha Christie, um policial tenta desvendar a morte da belíssima Anabela interrogando os diversos moradores de uma pensão. O filme estrela a atriz e dançarina Ana Esmeralda, que desempenha diferentes versões para a personagem principal. Esse longa-metragem também marca o único encontro nas telas entre os astros Procópio Ferreira e Jaime Costa.

A Pensão de Dona Stela (Alfredo Palácios, Ference Fekete, 1956)
Comédia musical baseada em peça de grande sucesso que se revela uma verdadeira e deliciosa chanchada paulista. Ao invés do samba de compositores cariocas, destacam-se as composições do mestre Adoniran Barbosa, que atua também como ator.

Getúlio, glória e drama de um povo (Mário Audrá Jr., 1956)
Documentário que se utiliza de imagens de arquivo para contar a trajetória pessoal e política de Getúlio Vargas pouco após o seu trágico suicídio. Valioso documento histórico que revela o fascínio provocado pelo “pai dos pobres” e que esse filme retratou em seu auge.

Arara vermelha (Tom Payne, 1957)
Baseado em romance de José Mauro Vasconcelos, é um drama violento e realista em que fugitivos lutam pela posse de uma pedra preciosa. Filmado em locações reais em aldeias indígenas, o longa-metragem traz no elenco os astros Anselmo Duarte e Odete Lara.

Casei-me com um xavante (Alfredo Palácios, 1957).
Homem branco sobrevive a acidente aéreo no Alto Xingu e acaba indo viver junto aos índios. Uma expedição vai resgatá-lo, resultando em cenas divertidas e muitas risadas. O futuro diretor Luis Sérgio Person colaborou no roteiro e participa como ator.

Vou te contá (Alfredo Palácios, 1958)
Comédia popular realizada no último ano de vida da Maristela que conta com a presença do músico Chocolate. A história se passa numa boate muito original, dando origem a cenas hilariantes e obviamente a muitas músicas. Filme essencial para o estudo da “chanchada paulista”.

Bibliografia

Livros:

AUDRÁ JÚNIOR, Mário. Cinematográfica Maristela: Memórias de um Produtor. : , 1997.
BARRO, Máximo. Caminhos e Descaminhos do Cinema Paulista a Década de 50. São Paulo: Centro Pesquisadores de Cinema, 1997.

Internet:

BRASILIAGENDA. http://www.brasiliagenda.com.br/control/noticia_detalhe.php?not_id=925

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