Lélia Abramo (1911-2004)

Biografia

FOTO Lelia AbramoLélia Abramo foi uma importante atriz, sindicalista e militante política brasileira nascida na cidade de São Paulo (SP) no dia 08 de fevereiro de 1911. Faleceu em São Paulo, no dia 09 de abril de 2004.

Filha dos imigrantes italianos, Afra Iole Scarmagnan, natural de Monselice (província de Pádua) e de Vincenzo Abramo, nascido em Torraca (província de Salerno), Lelia viveu na Itália entre os anos de 1938 e 1950, tendo sofrido as privações da Segunda Guerra Mundial.

Seu pai era empresário da área têxtil, havia sido sócio do conde Francisco Matarazzo em uma fábrica de tecidos no final da primeira década do século, mas faliu logo depois. Vicenzo morreu em 1949, sem ver a filha que estava na Itália. A casa sempre foi reduto de encontros entre jornalistas, escritores, artistas e políticos da esquerda brasileira. Lélia foi criada num casarão no bairro do Ipiranga.

Junto aos seus irmãos, o artista plástico Lívio Abramo, Beatriz Abramo, os jornalistas Athos Abramo, Fúlvio Abramo e Cláudio Abramo, fez parte de uma família que teve grande presença na história brasileira, tanto na militância política como na arte. Sua mãe Afra Iole era filha de Bortolo (“Bartolomeu”) Scarmagnan, militante anarco-sindicalista e organizador da greve geral de 1917 em São Paulo.

Dois de seus irmãos foram profissionais dos mais atuantes na história do jornalismo brasileiro, Cláudio e Lívio Abramo. Desde criança quis ser atriz, mas encontra barreiras em casa, pois sua mãe é contra. Com a crise financeira da família, arruma emprego num banco. Na época, já usava cabelos curtos e saias na altura do joelho. Depois foi trabalhar em uma fábrica, onde era responsável pelos salários dos funcionários. Um dia disse aos colegas funcionários que eles estavam sendo explorados e foi demitida no dia seguinte. Era um sinal das causas da esquerda que abraçaria com fervor toda a sua vida.

No início de 1938, aos 27 anos de idade, descobriu que tinha um problema sério de saúde, pois sentia fortes dores na cabeça e febres frequentes. Para melhor tratar de sua saúde e por intermédio da irmã Beatriz, que era casada com um oficial do Exército italiano, foi morar na Itália. Lá descobriu que tinha um cisto no ovário esquerdo. Após a cirurgia descobriu que não poderia mais ter filhos e abdicou do casamento a partir daí. Durante a Segunda Guerra Mundial permaneceu na Itália. De volta ao Brasil, durante um tempo, trabalhou como jornalista da agência de notícias Ansa, sob o comando do jornalista Giannino Carta. Ao mesmo tempo, atua em grupos de teatro amador voltados à colônia italiana.

Participou dos primeiros momentos de fundação da Oposição de Esquerda no Brasil, sempre se assumindo como uma simpatizante do trotskismo junto com Mário Pedrosa. Eduardo Maffei, militante comunista registra participação de Lélia na Frente Única Antifascista trocando tiros com os integralistas na Praça da Sé, em 1934. Em suas memórias Lélia afirma ter apenas portado “pedaços de pau” (pg. 54). Lélia Abramo foi também militante e fundadora do Partido dos Trabalhadores, tendo assinado a ata de fundação com Mário Pedrosa, Manuel da Conceição, Sérgio Buarque de Holanda, Moacir Gadotti e Apolônio de Carvalho. Foi uma personalidade presente em diversos momentos da vida política brasileira, como as Diretas Já.

Estreou profissionalmente aos 47 anos de idade, em 1958, na primeira montagem da peça Eles não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, como Romana, personagem que morava num morro do Rio de Janeiro. Dizia ela que todos achavam que sua atuação seria um fracasso por causa do seu forte sotaque italiano, mas no dia da estreia foi aplaudida de pé pelo público do Teatro de Arena, no centro da cidade de São Paulo. No mesmo ano, ganhou o Prêmio da Associação dos Críticos Teatrais de São Paulo e o Prêmio Saci, como melhor atriz coadjuvante. Atuou em inúmeras outras como Pintado de Alegre, Gente como a Gente, Mãe Coragem, etc.

Participou de 27 telenovelas, catorze filmes e vinte e três peças de teatro, tendo convivido com grandes nomes do teatro paulista, como Gianni Ratto e Gianfrancesco Guarnieri, com quem estreou nos palcos em 1968 na paça Eles não Usam Black-Tie.

Na televisão, sua primeira novela é A Muralha, de 1961. Seguem-se brilhantes atuações em telenovelas como Dez Vidas (1969) e Os Ossos do Barão (1973). É muito lembrada pela matriarca Januária Brandão, em Pai Herói (1979); a Mama Vitória em Pão Pão, Beijo Beijo (1983) e Bibiana na minissérie O Tempo e o Vento (1985).

Estreou no cinema em 1960 no filme Cidade Ameaçada. São mais de uma dezena de filmes, destacando-se Vereda da Salvação (1965) e Eles Não Usam Black Tie (1981).

Sua militância política custou-lhe a carreira televisiva, pois passou a ser ignorada pela Rede Globo, em razão de ter assumido a presidência do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, a partir de 1978, tendo sido a primeira chapa de oposição a tornar-se vitoriosa dentro do período iniciado pela ditadura militar brasileira de 1964. Esta eleição ganhou as principais páginas dos jornais paulistas da época, apesar da intensa censura, tendo como seus companheiros de diretoria Renato Consorte, Dulce Muniz, Cláudio Mamberti, Robson Camargo, entre outros.

Nos anos 1970, presidindo o Sindicato dos Artistas de São Paulo, foi uma das responsáveis pela regulamentação dessa categoria profissional. Conheceu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1978, de quem tornouse amiga e parceira de militância. Candidata-se como suplente ao Senado, em 1982, pelo PT, partido que ajudou a fundar. Lélia sempre esteve à frente dos mais importantes movimentos político-sociais brasileiros, como as manifestações contra a ditadura militar e a campanha pelas Diretas Já, entre outras. Essa militância política acaba prejudicando sua carreira, ao ser preterida pelas emissoras na escolha do elenco de suas novelas, ainda assim, graças ao seu talento, ainda participa de algumas novelas e minisséries como Avenida Paulista (1982), Pão, Pão, Beijo, Beijo (1983), O Tempo e o Vento (1985), Mania de Querer (1986) e A História de Ana Raio e Zé Trovão (1990), como Lúcia, sua última novela.

Em 1997, já com 86 anos de idade, a atriz lançou – junto com a editora da Fundação Perseu Abramo – sua autobiografia, intitulada Vida e Arte – Memórias de Lelia Abramo, contando toda a sua trajetória de vida.

Antonio Candido descreve Lélia Abramo como uma atriz que nunca vergou a espinha, nunca sacrificou a consciência à conveniência e desde muito jovem se opôs à injustiça da sociedade. Que sempre rejeitou as vias sinuosas e preferiu perder empregos, arriscar a segurança, sofrer discriminações para poder dizer a verdade e agir com seus pontos de vista… (prefácio do livro Vida e Arte)

Grande atriz brasileira, por todos respeitada, Lélia Abramo faleceu em São Paulo, no dia 09 de abril de 2004, aos 93 anos, vítima de uma embolia pulmonar.

Filmografia

:: Filmografia como Atriz ::

1994 :: Mil e Uma
1992 :: Manôushe, a Lenda de um Cigano
1983 :: Janete
1981 :: Maldita Coincidência
1981 :: A Mulher Diaba (MM)
1981 :: Eles não usam Black-Tie …. Malvina
1974 :: O Comprador de Fazendas
1973 :: Joanna Francesa (Brasil/França) …. Dona Olímpia
1970 :: Cleo e Daniel
1970 :: Beto Rockfeller
1968 :: O Quarto
1967 :: O Caso dos Irmãos Naves
1967 :: O Anjo Assassino
1964 :: Vereda de Salvação
1960 :: Cidade Ameaçada

:: Filmografia como Ela Mesma ::

1980 :: O Sonho não Acabou – Teatro Libertário (CM)

Bibliografia

Livros:

. Vida e Arte – Memórias de Lelia Abramo. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1997.
SILVA NETO, Antonio Leão da. Astros e estrelas do cinema brasileiro. 2. ed. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.

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