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Carlos Reichenbach (1945-2012)

Biografia

Carlos Oscar Reichenbach Filho, em arte mais conhecido como Carlos Reichenbach, foi um cineasta, roteirista, produtor, diretor de fotografia e professor de cinema brasileiro nascido em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, em 14 de junho de 1945. Cursou a Escola Superior de Cinema São Luis, tendo como professores mestres como Roberto Santos, Luis Sergio Person, onde dirigiu vários curtas experimentais mas não consegue concluí-los. Seu primeiro filme como diretor foi o curta Essa Rua Tão Augusta, de 1966, quando opta pelo cinema profissional. Seu primeiro longa foi Corrida em Busca do Amor, de 1971. Faleceu prematuramente em 2012, vítima de um infarto.

Ainda criança, muda-se com a família para São Paulo, com quatro meses de idade, quando sua mãe, Luise Tinger Reichenbach, foi autorizada pelos médicos a viajar de avião, se instalou definitivamente em São Paulo, terra natal de seu pai, Carlos Reichenbach, onde morava e trabalhava. O avô Gustav Reichenbach, veio ao Brasil, no início do século, com seu sócio Hartmann, à convite do governo brasileiro, instalar a primeira industria litográfica no país.

Por ser neto, filho e sobrinho de editores e industriais gráficos, Carlos teve desde cedo uma ligação profunda com a literatura e o jornalismo.

Carlos Reichenbach, pai, foi durante vários anos o editor de revistas conceituadissimas como Seleções Do Readears Digest (edição portuguesa e castelhana), Casa e Jardim (que lançou no Brasil), O Médico Moderno, Dirigente Industrial, e sobretudo a prestigiosa revista LADY (que lhe rendeu dois infartos, um deles fatal). Nada mais natural que Carlos Reichenbach, filho, tenha sido editor de todos os jornais nos colégios em que estudou. Em entrevista, há dez anos atrás, para o jornal Folha de São Paulo, revelou que o presente mais inesquecível que recebeu na vida, foi um mimeógrafo à tinta, ganho de seu pai, quando fez nove anos de idade. Com a morte do pai, em 1960, interrompeu os estudos em um colégio alemão na cidade de Rio Claro (estava sendo preparado para estudar artes gráficas na Alemanha), voltou para a capital de São Paulo, onde gradativamente foi abandonando o ramo da família e se interessando por cinema.

Assíduo freqüentador das salas de arte, dos poeiras do centro de São Paulo e das sessões do Museu de Arte, na rua Sete de Abril, promovidas pela Sociedade Amigos da Cinemateca, Reichenbach fez vários cursos de história e crítica cinematográfica, com Paulo Emílio Salles Gomes, Francisco Luiz de Almeida Salles, Alberto D´Aversa e outros. Na hora de optar por uma faculdade, Carlos prestou, em 1965, entre outros, vestibular no primeira curso de cinema de nível universitário no Brasil, a Escola Superior de Cinema São Luiz. Reichenbach imaginava, naquela época, que existisse a profissão de roteirista cinematográfico, por isso trocou o curso de neo-latinas na Universidade de São Paulo para integrar a segunda turma da São Luiz. Colega de João Callegaro, Ana Carolina, Paulo Rufino, Carlos Alberto Ebert, Enzo Barone, Sílvio Bastos e outros estudantes que, posteriormente, se profissionalizaram, Reichenbach foi aluno de mestres como Roberto Santos, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Chamie, Décio Pignatari, e sobretudo, Luis Sérgio Person, responsável pelo seu interesse em dirigir filmes. A São Luiz, durante os anos 60, reunia o meio cinematográfico emergente de São Paulo. Embora não fossem alunos, freqüentavam a ESC/São Luiz, Rogério Sganzerla, Jairo Ferreira, José Mojica Marins, Ozualdo Candeias, Fauzi Mansur, etc. De certa maneira, pode-se dizer que o cinema marginal (ou “bôca-do-lixo”) é fruto desta convivência nascida na ESC/São Luiz.

Produzido por Luis Sérgio Person, Reichenbach realiza seu primeiro curta-metragem em 35 mm, Essa Rua Tão Augusta, como exercício de curso. Já naquele momento, apaixonado pela cultura japonesa, Reichenbach começa à escrever críticas de cinema em jornais de bairro e a colaborar com Jairo Ferreira e Orlando Parolini em suas colunas semanais no jornal São Paulo Shimbun. Em 1966, Reichenbach fotografou o curta-metragem Via Sacra, de Orlando Parolini, primeiro filme underground feito no Brasil e jamais concluído porque Parolini, num acesso de paranóia, em 1970, sob a ameça de ter seu material filmado confiscado pela polícia federal, picotou todo o negativo, fotograma por fotograma. Por ter uma câmera Paillard Bolex 16mm, Reichenbach fotografou diversos curtas metragens para colegas e amigos, que participaram do Festival JB-Mesbla. Ávido leitor do Cahiers Du Cinema na década de 60 e um dos únicos assinantes brasileiros da revista Film Culture dos irmãos Meckas, Reichenbach realizou o curta-metragem Duas Cigarras, 16mm, mudo, de teor experimental. Apesar de sua formação literária, ou talvez por isso, Reichenbach foi cada vez mais se desinteressando pelo texto e se aproximando da técnica cinematográfica, tendo feito câmera e fotografia em vários filmes amadores de colegas seus.

Antes de abandonarem a São Luiz, para se profissionalizarem, Reichenbach e João Callegaro se uniram ao crítico mineiro Antonio Lima, e fundaram a Xanadú Produções Cinematográficas. Colocando de lado todos os conceitos estéticos, políticos e culturais da época, os três cinéfilos resolveram produzir um filme em episódios de teor exclusivamente comercial. Nascia alí, na porta de saída da Faculdade São Luiz, o cinema cafajeste. Um cinema absolutamente sintonizado com seu tempo. Como disse Anatol Rosenfeld, a arte mal comportada do pós-64, optou por uma estética do mau gosto e radicalmente indigente, com a cara do país. As Libertinas e O Bandido Da Luz Vermelha, realizados simultaneamente, foram as respostas fílmicas para o nascente movimento tropicalista.

Após As Libertinas, Reichenbach e Lima realizam Audácia!. O episódio de Reichenbach é um tributo à sua geração, influenciado pela vivência contra-cultural no período do desbunde. Um anti-filme, que propunha “o péssimo para chegar ao ótimo”. “A Badaladíssima dos Trópicos” é a prova de que naquele época, a vida era muito mais interessante do que a arte e o cinema. A repressão comia solta, o mundo estava mudando, vivíamos 68 à vinte e quatro quadros por segundo. Jimmy Hendrix e Janis Joplin na cabeça feita. Meu episódio em AUDÁCIA! é delírio à luz do barato. Um prolongamento do meu dia a dia anárquico; transgressão pura e niilista até a medula, como tudo que fazíamos na época, afirma Reichenbach. “Um filme ultra datado e que só fazia sentido na época.”.

À partir de 69, Reichenbach começa à iluminar e fazer câmera em longas metragens de outros diretores. De 69 até hoje, fotografou e operou a câmera de mais de 36 longas metragens. Foi premiado como melhor diretor de fotografia pelos filmes: Excitação (1976), de Jean Garret; A Força dos Sentidos (1979), de Jean Garret; e Doce Delírio (1982), de Manoel Paiva. Em 1969, Reichenbach iniciou, na raça, um longa metragem de agudo teor político, GUATEMALA, ANO ZERO. Chegou a rodar mais de cinqüenta por cento das cenas previstas em um roteiro de oito páginas (!!!), mas interrompeu o trabalho por pressões familiares.

Em 1970, foi convidado pelo produtor Renato Grecchi à dirigir um filme do gênero infanto-juvenil, com corredores de automóvel, garotas de biquini e música jovem. Realiza então, o seu autêntico e primeiro longa metragem: CORRIDA EM BUSCA DO AMOR. Devido aos enormes problemas de produção enfrentados durante as filmagens, Reichenbach foi obrigado à improvisar o roteiro diariamente com seus assistentes, Jairo Ferreira e Percival Gomes de Oliveira. As cenas eram escritas, à noite, conforme os atores e carros à disposição no dia seguinte. Nenhuma escola de cinema me ensinaria tanto quanto este filme. Aqui comprovei o truísmo de que o cineasta brasileiro é obrigado à transformar a falta de condições em elemento de criação, diz Reichenbach.

Em 1971, Reichenbach torna-se sócio-gerente da Jota Filmes, tradicional produtora de filmes publicitários em São Paulo. Durante 4 anos, escreveu, produziu, dirigiu e fotografou mais de 150 comerciais e filmes institucionais. Durante este período lecionou fotografia de cinema na Faculdade Alvarez Penteado e cinema publicitário na Escola Superior de Propaganda e Marketing. Em 1974, insatisfeito com os rumos de sua vida profissional, despede-se da profissão de publicitário, exatamente no momento em que começava à se tornar o diretor da moda. Investe tudo que sobrou da experiência empresarial e dos bens familiares no longa metragem Lilian M: Relatório Confidencial. Usando a infra-extrutura de sua empresa, sucatas de cenário de seu estúdio e o equipamento que possuía, fez o seu filme de linguagem mais radical. Com o filme concluído, vende sua parte na Jota Filmes, e jura à si mesmo nunca mais retornar ao ramo publicitário. Sai no início de uma carreira yuppie. Quando percebi que tinha três cartões de crédito na carteira, senti que era hora de pular fora… Joguei tudo que tinha acumulado em três anos, mais a experiência técnica adquirida durante este período, num filme súmula: do experimental ao cinema de gênero, do udigrudi amador ao rigor técnico extremo.

Ao sair da Jota Filmes, Reichenbach assume definitivamente a profissão de técnico cinematográfico. Da direção, produção, fotografia, operador de câmera, roteiro e, às vezes até como ator, participou em mais de quarenta filmes de longa metragem. Dirigiu e fotografou vários documentários institucionais, incluindo uma série de filmes em 16 mm para a Ford tratores, caminhões Volvo e um documentário de média-metragem para a multinacional holandesa Hunter Douglas, FORROS E FACHADAS, filmado por todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, produzido por João Callegaro. A filmografia de Carlos Reichenbach como autor e diretor compreende 6 curtas-metragens, 4 episódios em longas metragens e 14 longas metragens. Tem exercido, esporadicamente, a função de crítico e ensaísta em diversas publicações, assinou durante dois três duas prestigiadas colunas semanais de cinema em sites específicos, participado de inúmeros cursos e palestras sobre o filme brasileiro no Brasil e exterior, lecionou cursos de roteiro cinematográfico em diversos lugares, fez parte da diretoria e conselho de diversos órgãos de classe cinematográfica e foi, durante quatro anos, titular da cadeira de direção cinematográfica e “expressão em cinema e vídeo”, do curso de cinema e vídeo da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo.

Considerado um dos mais importantes realizadores paulistas, Reichenbach teve sua obra reconhecida internacionalmente em 1985 no Festival de Rotterdam, Holanda, onde participou com seus filmes por cinco anos consecutivos. Foi por duas vezes premiado pela Cinemateca Real de Bruxelas, recebeu com Alma Corsária, o prêmio dos 30 anos do Festival do Novo Cinema de Pesaro. Em 2001, após ter sobrevivido a três infartos do miocárdio e ganhar três pontes de safena e uma mamária, foi o primeiro cineasta a receber o Troféu Eduardo Abelim, no 29° Festival de Gramado. Recebeu também o Troféu Barroco, pela obra, na 3ª Mostra de Cinema Brasileiro de Tirandentes, Minas Gerais, e o troféu especial do Guarnicê de Cine-Vídeo, em São Luiz do Maranhão.

Carlos Reichenbach morava em São Paulo, cidade personagem de seus filmes, era casado com a dentista Lygia e pai de três filhos adultos. Dividia os cargos de sócio-gerente com a produtora Sara Silveira, na Dezenove Som e Imagens Produções Ltda., e com sua filha, Eleonora, na Beethoven Street Filmes.

Filmografia

:: Filmografia como Diretor ::

2008 :: Falsa Loura
2005 :: Bens confiscados
2004 :: Garotas do ABC (Aurélia Schwarzenega)
2002 :: Equilíbrio e Graça
1999 :: Dois Córregos – Verdades Submersas no Tempo
1994 :: Olhar e Sensação
1993 :: Alma Corsária
1990 :: City Life (Episódio: Desordem em Progresso)
1987 :: Filme Demência
1986 :: Anjos do Arrabalde (As Professoras)
1984 :: Extremos do prazer
1982 :: As Safadas (Episódio: Rainha do Fliperama)
1981 :: O Paraíso Proibido
1980 :: O Império do Desejo
1979 :: O M da Minha Mão (CM)
1979 :: Sangue Corsário (CM)
1979 :: Sonhos de Vida (CM)
1979 :: Amor, Palavra Prostituta
1978 :: A Ilha dos Prazeres Proibidos
1977 :: Sede de Amar (Capuzes Negros)
1974 :: Lilian M: Relatório Confidencial
1972 :: Corrida em busca do Amor
1969 :: Audácia – A Fúria dos Desejos (Episódios: Prólogo)
1969 :: A Badaladíssima dos Trópicos x Os Picaretas do Sexo
1968 :: As Libertinas (Episódio: Alice)
1966/68-Essa Rua Tão Augusta (CM)
1966 :: Pierrot si Fou (CM)
1965 :: Duas Cigarras (CM)
1963 :: Fuga Própria (CM)

:: Filmografia como Roteirista ::

2008 :: Falsa Loura
2005 :: Bens confiscados
2004 :: Garotas do ABC
1977 :: Snuff – Vítimas do Prazer

:: Filmografia como Ator ::

2013 :: Avanti Popolo
2004 :: Garotas do ABC

:: Filmografia como Diretor de Fotografia ::

1998 :: A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha (CM)
1995 :: Glaura (CM)
1994 :: Lumpet (CM)
1993 :: Alma Corsária
1992 :: As Rosas Não Calam (CM)
1991 :: Aventura, Amor e Transporte Público (CM)
1991 :: Sua Excelência, o Candidato
1990 :: City Life (Episódio: Desordem em Progresso)
1986 :: Laser – Excitação de Mulher
1985 :: Gozo Alucinante
1985 :: Made in Brazil (Episódio: Um Milagre Brasileiro)
1985 :: Os Bons Tempos Voltaram – Vamos Gozar Outra Vez (Episódio: Primeiro de Abril)
1985 :: Um Milagre Brasileiro (CM)
1984 :: Como Salvar Meu Casamento (S.O.S. Sex Shop)
1984 :: Elite Devassa
1984 :: Extremos do prazer
1982 :: Doce Delírio
1982 :: As Safadas (Episódio: Rainha do Fliperama)
1982/87 :: Instinto Devasso
1982/83 :: Doce Delírio
1982 :: Doce Delírio
1982 :: Tessa, a Gata
1982 :: Amor de Perversão
1981 :: O Paraíso Proibido (co-fot.: Alfredo Stinn (psd: Reichenbach) e Carlos Xavier Shintomi)
1981 :: As Prostitutas do Dr. Alberto
1980 :: A Mulher Que Inventou o Amor
1980 :: O Império do Desejo (cofot. Alfredo Stinn, psd: Reichenbach)
1980 :: O Gosto do Pecado
1979 :: Amor, Palavra Prostituta
1979 :: A Força dos Sentidos
1979 :: J.J.J., O Amigo do Super-Homem
1979 :: Mulher, Mulher
1979 :: A Dama da Zona
1979 :: A Força dos Sentidos
1979 :: Viúvas Precisam de Consolo (fot.)
1979 :: O M da Minha Mão (CM) (dir., fot.)
1979 :: Sangue Corsário (CM) (dir., fot.)
1979 :: Sonhos de Vida (CM) (dir., fot.)
1978 :: A Ilha dos Prazeres Proibidos
1978 :: Meus Homens, Meus Amores
1977 :: Sede de Amar (Capuzes Negros)
1976 :: Excitação
1974 :: Lilian M: Relatório Confidencial
1972 :: O Guru e os Guris (CM)
1971 :: Os Amores de Um Cafona (cofot. Antonio Gonçalves)
1970 :: Orgia (O Homem Que Deu Cria)
1969 :: Audácia – A Fúria dos Desejos (Episódios: Prólogo)
1969 :: A Badaladíssima dos Trópicos x Os Picaretas do Sexo
1969 :: Amor 69
1969 :: O Negativo Jogado Fora (CM)
1967 :: Via Sacra (CM)
1966 :: Pierrot si Fou (CM) (cofot. Hideo Nakayama)
1965 :: A Fraude (CM)

Publicações

REICHENBACH, Carlos. ABC Clube Democrático. São Paulo: ABCD Maior, .

Bibliografia

Livros:

ABREU, Nunes César. Boca do lixo: cinema e classes populares. Campinas: Unicamp, 2006.
CAETANO, Daniel (Org.). Cinema Brasileiro 1995-2005: revisão de uma década. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.
LYRA, Marcelo. Carlos Reichenbach: o cinema como razão de viver. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, .
SILVA NETO, Antonio Leão da. Dicionário de Fotógrafos do Cinema Brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2011.

Internet:

HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO. Carlos Reichenbach. Disponível no endereço: http://www.historiadocinemabrasileiro.com.br/carlos-reichenbach/
OLHOS LIVRES. Disponível no endereço: http://www.olhoslivres.com/

História do Cinema Brasileiro

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