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Central: Retrato de época

Notícia

Um clique e fez-se eterno um instante no cinema da cidade. Uma fotografia, que, de forma breve, guardou a euforia dos que acabaram de assistir a um filme. Guardada no enorme acervo iconográfico do ex-funcionário do Cine-Theatro Central Waltencir Parizzi, a fotografia, que mostra o fim de uma das sessões do filme Rose Marie, descortina inúmeros costumes que envolvem o cinema e Juiz de Fora no ano de 1937.

Do luxo dos espectadores à majestosa fachada do maior cinema local, a imagem revela uma época em que estar diante da sétima arte era um importante evento social.

Relíquias como essa imagem remontam a um passado do qual Parizzi muito se orgulha. “Tenho uma coleção de recortes e programação, que fiz com minhas próprias mãos. Fui colando em livros grandes, com grude”, revela o senhor de invejável memória. “Fiz dois ou três álbuns com a história do cinema na cidade”, completa, referindo-se a uma parte do acervo que doou para a Universidade Federal de Juiz de Fora como forma de agradecimento pelo trabalho que durou toda a sua vida profissional, e no qual assumiu variadas funções, de bilheteiro a produtor.

Das lembranças de Parizzi sobressai o clima efervescente de um cinema hollywoodiano em franca ascendência. “As pessoas se arrumavam muito para ir ao cinema. A frequência era grande. Aquilo era um grande acontecimento”, rememora.

PELÍCULAS

O filme em cartaz naquela noite especialmente movimentada, fixada pela fotografia, retratava mais um romance proibido, ao estilo dos filmes da época, com a novidade de deixar para trás a poética do cinema mudo. Estrelado por Jeanette MacDonald, a grande musa dos musicais norte-americanos, e por seu fiel parceiro na telona, Nelson Eddy, o longa-metragem foi produzido e distribuído pela Metro-Goldwyn-Mayer, marca eternizada pelo uso de um leão em sua logomarca.

Voltando 74 anos no tempo, vê-se no letreiro rodeado por luzes o nome dos atores, tão grandes quanto o título do filme. Como hoje, naquela época também existia uma grande fidelização aos intérpretes, garantia de sucesso de público tanto para os produtores de Hollywood quanto para os coordenadores das agendas dos cinemas.

Em letras menores no letreiro aparece o nome do diretor W.S. Van Dike, um dos mais versáteis e rápidos profissionais da MGM. Tendo iniciado sua carreira em 1917, foi o responsável pelo primeiro encontro de Jeanette e Eddy, em Oh! Marietta, opereta de retumbante sucesso à época. “Essa é a época de ouro de Hollywood, dos grandes musicais, que iriam declinar na década de 50. Apesar de se tornarem, posteriormente, mais complexos, os musicais dessa época eram muito simples, grandes números de dança entremeados por uma historinha”, explica o cineasta e pesquisador Franco Groia.

INSTANTÂNEOS

Atento ao fotógrafo, que disparou seu flash contra a multidão, o público reunia elegantes homens e mulheres das mais variadas idades. O alinho, já presente no uniforme dos porteiros – jaqueta cinza com botões dourados, camisa branca, calça azul marinho e sapatos pretos –, também era percebido na plateia.

Os homens vestiam ternos, gravatas e chapéus, sem esquecer o famoso lenço no bolso. As mulheres mostravam estar em consonância com as últimas tendências parisienses, trajando conjuntos de passeio em seda estampada ou crepe georgette, golas jabot e laços, além de charmosos chapéus, ora indiscretos, ora reservados.

Embora toda a pompa sugira elitismo, o cinema não era uma atração cara. De acordo com Franco Groia, a maioria dos frequentadores de cinema era formada por operários, pessoas simples. “O cinema tinha um poder de massa. Era um entretenimento da grande família, muito barato, da comédia leve de fácil assimilação”, analisa, apontando as poucas opções de lazer da época.

Um olhar atento ao primeiro plano da fotografia permite confirmar o ar cerimonioso da sessão, bem como de qualquer outro passeio que se fizesse no trajeto da Rua Halfeld. Com sofisticados hotéis e cafés, além de filiais de famosas lojas cariocas, a rua demonstrava o apreço pela Europa, vivido por uma cidade cuja arquitetura rumava para o art déco. A iluminação que ornava a Praça João Pessoa ressaltava o estilo que conjugava formas geométricas e simplicidade de suportes.

Inserido no instante fotográfico, tornou-se eternizado no canto direito da imagem um dos maiores selos fonográficos da América. Criada em 1929, a RCA Victor foi responsável por grandes transações no circuito musical e manteve em seu u elenco nomes como Elvis Presley e David Bowie. No Brasil, lançou Nelson Gonçalves e outros ídolos da música popular, embalando um veículo que disputava público com a tela grande.

Lugares e pessoas revelados por um clique, como se a fotografia extrapolasse seu papel de registro, assumindose como documento, retrato de costumes e práticas de uma época. Numa ironia, a fotografia contando o cinema. Reproduzindo Cartier-Bresson, é possível acreditar que, “de todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório”.

Fonte de Referência

Jornal Palco UFJF – Ago. 2011

História do Cinema Brasileiro

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