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Cine Reskalla

Histórico

Na década de 60, a concessionária de Ubá-MG, a Cia. Força & Luz Cataguases-Leopoldina, não dispunha de força para levantar um gato pelo rabo e a lâmpada acesa parecia um tomate maduro. O responsável pela empresa na cidade era o Senhor Arnaldo Albuquerque, mais conhecido como Arnaldo Força & Luz. Sô Arnaldo vivia correndo pra baixo e pra cima, de terno caqui, acudindo os problemas na rede. Qualquer chuvinha a luz apagava.

Naquela ocasião, os irmãos libaneses, Felipe Reskalla e Nagib Reskalla, resolveram abrir um cinema na cidade para concorrer com o grande exibidor Agostinho Marques, dono da rede Cine Brasil. A sala ficava na Rua São José entre as residências dos irmãos – Sô Felipe à direita, Sô Nagib à esquerda. O cinema era administrado pela família. Os bilheteiros, porteiros, lanterninhas, baleiros, projetores e programadores eram Rescalla. Retirar poeira, combater pulgas e aplicar creolina nos mictórios ficava por conta de um empregado da marmoraria dos irmãos, localizada atrás do cinema.

Felipe e Nagib introduziram no Cine Reskalla uma novidade em Ubá: ar condicionado. Mandaram fixar uma tubulação de aço no lado de fora da parede do salão e colocaram nas extremidades dois possantes ventiladores Baião soprando pra dentro. Furaram vários buracos na tubulação e na parede, de modo que os ventiladores captavam o ar abafado e úmido da cidade e jogavam diretamente na nuca dos espectadores. O barulho do ar-encanado lembrava o teco-teco do Ismael e proporcionava um realismo fantástico aos filmes que tivessem batalhas aéreas. O efeito em O morro dos ventos uivantes foi muito elogiado.

A inauguração do cinema foi grandiosa. Épicos bíblicos estavam em voga e os novos exibidores aproveitaram para ganhar bom dinheiro. As filas subiam a Quinze de Novembro até o Abacatinho. Os espectadores se emocionavam com os efeitos especiais e o cinemascope. Ninguém piscava durante a corrida de bigas em Ben Hur, na abertura do Mar Vermelho por Moisés em “Os dez mandamentos” e quando o gladiador Victor Mature quebrou o pescoço de um touro preto no Coliseu em ” O manto sagrado”.
Não sei se é verdade, mas, dizem que Alaor Chapinha, forte como Mature, quis também quebrar o pescoço do touro da fazenda Santa Maria, de propriedade de sua família. Por sorte, Sô Agostinho ficou sabendo e não deixou, evitando que o animal quebrasse o pescoço de seu filho.

Uma noite calorenta, jantei e fui para a varanda ver papai pitar um cigarrinho de palha. De pernas cruzadas e vassourinha do Jânio Quadros na lapela, ele jogava a fumaça pra cima perfumando o céu, um momento eternizado na minha memória. Papai apagou o cigarro e colocou a metade no bolso da camisa pra mais tarde. Descruzou as pernas, bateu o pé com força no chão, apoiou as mãos nos joelhos e levantou decidido. Saiu a passos largos e balançando o corpo em direção à Praça Guido. Quando sumiu no horizonte, entrei.

Calçei uma bota cano-curto, penteei o cabelo pra trás, jogando-o ligeiramente para o meio, puxei um topete moderno com a ponta do pente, passei desodorante de bastão e saí com cheiro de camofa e sonhos de gigolô.

Na Praça São Januário, acendi o último cigarro Continental sem filtro e contornei o Jardim no sentido anti-horário. A neta do Dr. Ângelo, aquele monumento de mulher, estava na sacada do solar dos Barletta olhando por cima das árvores e dos homens. Timidamente, corri os olhos por entre as folhas e os pardais, e falei pra dentro: “Joga as tranças Rapunzel.” Nisso, chegou Almir Mauad olhando furtivamente para a sacada, procurando um pedaço de perna entre os balaústres.
“Viu o filme francês de sacanagem que está passando no Cine Rescalla?”, perguntou Almir com um pouco de baba na boca. “Tem uma loura gostosa que fica peladinha tomando sol no terreiro. Pena que uns lençóis estendidos no varal atrapalham a cena. Mas, de qualquer maneira, dá muita sensação. Vamos?”

“Não é proibido para menores de 18 anos?”, perguntei desanimado.
“É, mas os ‘batrícios’ não podem ver dinheiro. Vamos que eles deixam entrar.”
“Não vou não, só tenho 200 cruzeiros.”
“Vamos, Sô! Eu lhe empresto 100, depois você me paga.”
“Então, vamos”, concordei eu.
No horizonte, pro lado da zona, atrás do morro do Cruzeiro, tinha uma grande nuvem preta soltando relâmpagos, tipo coriscos, anunciando chuva.

A bilheteria ficava no centro do saguão de entrada. Compramos as entradas de uma das filhas do Sô Felipe e ficamos vendo os cartazes nas paredes laterais, enquanto as pessoas chegavam. O filme de sacanagem era E Deus criou a mulher, obra marcante de Roger Vadim, onde o diretor apresentou ao mundo o balneário Saint-Tropez e a super-estrela Brigitte Bardot. A fita, em cinemascope, influenciou uma geração inteira: as mocinhas passaram a usar calças Saint-Tropez, de cós baixo, e os mocinhos a levar BB para o banheiro.

De repente, Almir e eu viramos um cisco. Chegou o legendário Mário Cascavel, arrastando uma turma da sinuca do Maurílio Jubileu. Seu estilo “noir” deu um toque de filme de gangster americano ao ambiente de sacanagem francesa. Com pouco, entrou o sardento Diabo-Louro, exalando cafajestice. Trememos. Da Paróquia São Januário os elementos mais distintos eram Braz Elói, Chico Brandão e Cacau Trombola.

Falei baixinho para o Almir: “Vamos entrando, despistadamente, pra gente pegar bons lugares.”
Na entrada do mictório, à direita do corredor, Mário Cascavel, com o chapéu preto meio de banda, encostado no portal, espremendo uma cortina azul ensebada, dava as últimas tragadas no mata-rato. Passamos sem desviar o olhar e descemos a rampa em direção à sala de projeções, sob o barulho das máquinas de desbobinar fitas e do burburinho dos espectadores impacientes.

A sala estava quase cheia. Descemos do lado do ar-encanado e conseguimos lugares na frente. Acomodado, olhei pra trás e dei uma cubada no ambiente. Quase não havia mulheres.

Sô Nagib afastou a cortina de veludo vermelho desbotado, percebeu que o salão estava cheio e deu ordens pra ligar o ar-encanado e começar a sessão. Quando o filme iniciou, começou a cair um toró de assustar peixe.

Sô Nagib, experiente e temente a Deus, correu em casa e acendeu uma vela para Santa Bárbara. Com fome, foi na geladeira e pegou um resto de charuto de folha de uva que sobrou do almoço. Comendo e rezando, a luz apagou na hora que Brigitte Bardot tomava sol como Deus criou a mulher e nós torcendo para que uma ventania tirasse os lençóis da frente. Sô Nagib ouviu o urro vindo do cinema, largou o charuto pra lá, pegou uma lanterna e saiu correndo para a Rua São José, iluminada pelos faróis dos carros. Ficou sabendo que uma árvore havia caído no Corte-Grande e derrubado a rede elétrica. Ia demorar.

“UUUUUUU! POIERA! NAGIB FDP! CADÊ MEU TROCO! PQP! PULGUEIRO! FIIIIIIIIIIIIIU! LADRÃO! VIADO! CHIFRUDO! UUUUUUUU!”
No meio da bagunça, nego começou a tirar o braço das cadeiras e a jogar pra cima.
“UUUUUUUUU! LADRÃO! VIADO! QUERO MEU DINHEIRO! PQP! CHIFRUDO! PULGUEIRO! FDP! FIIIIIIIIIIIIU! CORNO! UUUUUUUUU!”
Depois de 20 minutos, a multidão começou a jogar as próprias cadeiras para cima. O patrimônio dos Rescalla estava ameaçado. Sô Nagib, com jeitão de Charles Aznavour e nariz de De Gaulle, desceu a rampa com a lanterna na mão e uma cadeira na outra. De frente para a platéia, subiu na cadeira, pediu silêncio e falou:
“Distintos moleques, a culpa não é minha e nem do meu irmão Felipe. A culpa é do filho da puta do Arnaldo Força & Luz.”
“UUUUUUUUU! BAIXINHO FDP! VIADO! MÃO DE VACA! CADÊ MEU TROCO! PQP! FIIIIIIIIIIU”
“Calma gente. Caiu uma árvore no Corte-Grande e danificou a rede elétrica. O concerto vai demorar. Conversei com meu irmão Felipe e vamos distribuir vale-entrada pra todo mundo. Façam o favor de fazer uma fila.”

As filhas dos irmãos Rescalla improvisaram a distribuição dos vales no saguão do cinema. Instaram uma mesa, três cadeiras e umas velas. Uma cortava pedaços de papel manilha vermelho. A mais baixinha escrevia: “CINE RESCALLA – Vale-entrada.” E uma terceira carimbava e rubricava. Ficou até parecendo seção eleitoral.

Domingo seguinte peguei o vale-entrada de papel manilha e fui à matinê. Na Praça da Independência, encontrei Padre Francisco puxando uma fila dupla de seminaristas olhando para o chão. Assistimos, enternecidos, Marcelino pão e vinho.

Bibliografia

Crônicas

MACHADO, José Daniel. Distintos moleques. Disponível no endereço: http://ubanoticias2.blogspot.com.br/2011/08/cronica-distintos-moleques_24.html

Livros:

MAZZEI, Celia; MAZZEI, Celma. Por todos os cantos. São Paulo: IBRASA, 2003.

História do Cinema Brasileiro

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