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Cine-Theatro Para-todos – Juiz de Fora – MG

Histórico

Em 1946, Carlos Mitterhofer, um tipógrafo de origem alemã e temperamento rígido, uniu-se a seu amigo e vizinho Arlindo Dilon, funcionário da Fábrica de Estojos e Espoletas de Artilharia (FEEA), para abrir um cinema em um terreno vago, ao lado de sua casa, na rua Madre Adelina, nº 20, na Vila de São Vicente de Paula, atual bairro Borboleta.

Juntos, ergueram, então, um salão e adquiriram dois projetores Simplex 35mm. Moradores que contribuíram com dinheiro para compra das cadeiras ganharam lugar cativo no cinema. Assim, não precisavam pagar ingresso para ocupar uma das 62 cadeiras ou sentar-se em algum dos 70 lugares distribuídos por bancos de madeira, com encosto, como bancos de igreja.

A inauguração do Cine-Theatro Para-todos, realizada em 07 de abril de 1947, foi um acontecimento no bairro, que lotou o salão para assistir ao filme Capitão Fúria. Era tanta gente que Mitterhofer e Dilon abriram a porta do cinema para que o público que ficou do lado de fora pudesse assistir.

Assim, com acontecimentos que lembram filmes nostálgicos sobre os cinemas do interior, começava a história dos Cine-Theatro Para-Todos, um dos primeiros cinemas de bairro de Juiz de Fora. Vieram depois outras casas que ficaram na memória da comunidade, como o Cine Rex, no Mariano Procópio, o São Caetano, no bairro Ladeira, o Real, no Bonfim e o Paraíso em São Mateus. Nenhum sobreviveu à onda de fechamento de salas de exibição no país entre as décadas 70 e 80. Transformaram-se em lojas, fábricas, depósitos, igrejas, oficinas, casas de show etc.

A história do Para-Todos emociona e faz parte da memória de muitos moradores do bairro Borboleta, como a de Alzira Vieira Lins, que relata ter sido no interior do cinema seu primeiro beijo ou a história, quase uma anedota, daqueles meninos de calças-curtas, hoje pais de família, que entravam pela porta lateral do cinema e escondiam-se debaixo das cadeiras para assistir filmes com cenas mais “picantes” – o que para eles, então, era considerado filme “pornográfico”, não passava de uma cena ou outra onde havia mulheres com decotes mais pronunciados ou a visão de um joelho descoberto.

Os cinemas de bairro eram empresas familiares ou casas mantidas por instituições religiosas, que usavam dinheiro dos ingressos como fonte de recursos para seus programas de assistência social. Para os moradores dos bairros, estes cinemas representavam, muitas vezes, seu único entretenimento, o lugar onde as famílias iam ver filmes de Oscarito e Mazzaropi e superproduções hollywoodianas, com destaque para sagas bíblicas como “Sansão e Dalila” e “Os dez mandamentos”. Em geral, eram realizadas duas sessões diárias, sempre à noite, e matinês nos finais de semana. Os cinemas empregavam moradores dos bairros ou os próprios familiares dos donos.

Armando Mitterhofer, filho do proprietário do Para-Todos, aos nove anos já trabalhava no cinema, onde foi baleiro, lanterninha e operador. Seu pai era funcionário da famosa Companhia Dias Cardoso: trabalhava o dia todo na tipografia e à noite ia para o cinema. “Eram os anos dourados da sétima arte e a sala estava sempre cheia”, diz ele.

Os cinemas de bairro chegaram a alugar os filmes diretamente junto às empresas de distribuição, mas todos acabavam fazendo parte da Companhia Central de Diversões. Os filme que saíam de cartaz das salas do centro iam direto para os bairros, levados por uma carroçinha, dentro de grandes tambores de latão. A Companhia Central de Diversões recebia uma porcentagem sobre as bilheterias.

Segundo Waltencyr Parizzi, que trabalhou décadas na empresa, havia até um esquema de divulgação, com folhetos distribuídos nas casas comerciais, onde – em troca de convites para filmes – eram afixadas tabuletas de propaganda. Além disso, um carro de alto-falante percorria os bairros anunciando a programação e havia também a famosa sirene que soava anunciando que a sessão ia começar. As salas lotavam, recorda, saudoso, Parizzi. Moradores das redondezas também freqüentavam os cinemas. “Alguns vinham de São Pedro e do Monte Castelo”, conta Armando Mitterhofer.

Nas sessões de quarta-feira, o Para-Todos exibia, após o filme, um daqueles seriados que deixavam o público em suspense até o próximo capítulo. Dentre eles, “As aventuras de Tarzan”, “Dick Tracy contra o crime”, “Flash Gordon no planeta Mongo” e “Perigos de Nioka”. Na semana Santa, “A vida de Cristo” era garantia de um público numeroso e contrito. A maioria de cinemas de bairro funcionou até meados da década de 70, quando, um a um, começaram a fechar suas portas devido à reduzida freqüência.

Na opinião de Armando Mitterhofer, a decadência dos cinemas tem um grande culpado: a TV, em especial na novela Irmãos coragem, um dos maiores sucessos do gênero até hoje, exibida justamente no único horário do Paratodos em dias úteis. “A frequência caiu 90% e era comum começar uma sessão com apenas cinco ou oito espectadores”, conta.

Os proprietários do Cine-Teatro ainda insistiram, confiantes de que era uma fase passageira. Quando se deram conta de que a situação não seria revertida, decidiram fechar a casa, depois que 29 anos e 25 dias de funcionamento ininterrupto. A última sessão do cinema Para-Todos aconteceu em 02 de maio de 1976, com o filme Uma rajada de balas. O salão foi alugado pela Malharia Jumbo, que mais tarde comprou o prédio, onde está instalada no local até hoje. (FRMG)

Galeria

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