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Ítala Nandi

FOTO Itala NandiÍtala Maria Helena Pellizzari Nandi, em arte conhecida como Ítala Nandi (também grafada como Íttala Nandi), é uma atriz, cineasta e escritora brasileira nascida na cidade de Caxias do Sul (RS) em 04 de junho de 1942. Criadora de protagonistas femininas no período do Teatro Oficina, Ítala Nandi tornou-se primeira atriz da fase tropicalista, também atuante no cinema nacional.

Iniciou-se no teatro amador em sua cidade natal, participando de Um Gesto por Outro, de Jean Tardieu, em 1959, e A Cantora Careca, de Eugène Ionesco, no ano seguinte. Já em Porto Alegre, participou do Teatro Equipe. Em 1960, integrou um elenco semiprofissional, na montagem de O Despacho, texto e direção de Mário de Almeida, em Porto Alegre. Fez uma breve participação em O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, na montagem de Fernando Torres para o Teatro dos Sete. Casou-se com Fernando Peixoto e, em 1962, ambos vêm para São Paulo. Integrando-se, na condição de administradora, ao Teatro Oficina. Sua estreia na companhia ocorreu inesperadamente, substituindo Rosamaria Murtinho em Quatro Num Quarto, de Valentin Kataev, grande sucesso de 1962.

Em 1963, mudou-se para São Paulo com seu marido, o ator/diretor Fernando Peixoto, e matriculou-se no curso de interpretação de Eugênio Kusnet. No teatro, Ítala integrou o elenco da peça Pequenos Burgueses, em 1963, direção de José Celso Martinez Corrêa para o texto de Máximo Gorki. Nas sucessivas remontagens, interpretou quatro diferentes papéis na peça.

Na condição de administradora, cabe-lhe capitanear o teatro, em 1964, quando do golpe militar. Ocasião em que José Celso, Fernando Peixoto e Renato Borghi são obrigados a se esconder. Ela produziu e interpretou Toda Donzela Tem um Pai que É uma Fera, despretensiosa comédia de Gláucio Gill, com direção de Benedito Corsi, para despistar a vigilância sobre o teatro.

Em 1964, estreou na televisão, na novela Melodia Fatal, pela TV Excelsior.

Volta à cena, em 1965, em Os Inimigos, de Máximo Gorki, numa direção de José Celso, que ocupa o palco do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). O Oficina sofre um incêndio e, para empreender a reconstrução, Ítala centraliza a administração da remontagem de três antigos sucessos, viabilizando o levantamento de fundos, em 1966. Ainda nesse ano, faz o papel de filha de O Sr. Puntila e Seu Criado Matti, de Bertolt Brecht, contracenando com Jardel Filho, numa montagem carioca de Flávio Rangel. Em 1967, na temporada carioca de Pequenos Burgueses, o Oficina está quase reerguido, transformado num teatro à italiana, equipado com palco giratório, com projeto de Lina Bo Bardi. O texto escolhido para a reabertura é O Rei da Vela, de Oswald de Andrade (1890-1954).

Estreado em 1967, Ítala interpretou Heloísa de Lesbos, acrescentando à figura definitiva contribuição pessoal. Projeta-se como atriz de irresistível carisma. Ao lado de seus louvados dotes físicos, a atriz impõe seu talento e inteligência. Quando da temporada carioca, sai a reportagem Esta Mulher É Livre, na Revista Realidade, transformando-a, da noite para o dia, em celebridade nacional. Assumindo com inteira sinceridade – mas também muita coragem – sua condição feminina emancipada, Ítala encontra-se no auge de sua exuberância, como soberana figura feminina do grupo teatral de maior repercussão de um país que, ainda tradicionalista e machista, interpreta sua postura desabrida sobre o sexo e a vida como escândalo.

Nesse clima aclamatório ela parte para Paris, logo a seguir. Como bolsista do governo francês, viveu meses decisivos acompanhando de perto não só a produção teatral como, entre uma estreia e outra, as assembleias estudantis na Sorbonne. Na eclosão da greve geral de maio de 68, todo o grupo está reunido na Europa, para as apresentações de O Rei da Vela na França e na Itália. O forte impacto dos acontecimentos não deixou de estar presente na criação seguinte do Oficina: Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, 1968. Ítala viveu Virgínia, a filha do físico e matemático, noutra elogiada interpretação. Para a revista Leia, ela escreveu, tempos depois, sobre a condição da mulher no teatro brechtiano, destacando o modo como são as mulheres retratadas em Galileu: Há dois tipos de tirania com relação à mulher e ao povo – a da violência e a da alienação social, que são produto do mesmo sistema divisório de uma sociedade classista e sexista (…) de um lado Galileu, Federzoni, o Pequeno Monge e Andréa fazem experiências para provar as ‘manchas solares’, eles desvendam as estrelas; no lado oposto estão Virgínia, bordando, e D. Sarti, costurando; elas falam de horóscopo….

A crise dessa alienação social irá desfigurar Maria, a nova personagem de Ítala em Na Selva das Cidades, outro texto de Brecht montado pelo Oficina em 1969. O espetáculo estréia com seis horas de duração, encurtado depois: um imenso laboratório que acrescenta inúmeros desdobramentos para cada cena e cada situação. Maria, jovem ingênua que vem do campo para a metrópole, será por ela tragada, reduzida à prostituição. Numa cena antológica, ao declarar seu amor pelo malaio Shilink, Maria se despe. É este o primeiro nu frontal enfrentado por uma atriz no teatro brasileiro – e com iluminação plena. Dele Ítala dá conta com a maior singeleza poética, contribuindo para tornar inesquecível toda a sólida proposta estética de José Celso Martinez Corrêa. Após vitoriosa carreira em São Paulo e no Rio de Janeiro, a excursão segue para Minas Gerais; mas a montagem extravasa seu conteúdo ficcional, em cenas de curra e violência.

Em Belo Horizonte, Ítala é lançada no meio da platéia por um dos atores. A incontida agressividade do espetáculo passa dos limites e, marca, a partir de então, um conflito que ela enfrenta com alguns dos novos integrantes do Oficina, incorporados após Roda Viva, direção de José Celso para o texto de Chico Buarque, no Rio de Janeiro. A crise desencadeada faz cada um dos sócios tirar férias para repensar o projeto comum.

Ítala está vivendo, nesse momento, um relacionamento com o cineasta Luiz André de Souza Faria, e aceitou filmar Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra, e Pindorama, de Arnaldo Jabor, em 1970. O Teatro Oficina, novamente reunido, decide fazer um filme, denominado Prata Palomares. Rodado em Florianópolis, a produção foi confusa e um irremediável conflito divide André Faria e José Celso Martinez Corrêa. Sem este, a produção do filme prossegue. Para Ítala, porém, novos conflitos se avizinham, depois da chegada do Living Theatre e do grupo Lobos para trabalharem com o Oficina. Discordando dessas propostas, ela afasta-se definitivamente do grupo.

A partir de então, Ítala, morando no Rio de Janeiro, se lançou numa série de projetos pessoais, atendendo, em cada nova fase, a desígnios nem sempre claros, mas convergentes para sua realização como atriz e como mulher. Nos palcos conhece momentos díspares, como as mal-sucedidas O Ministro e a Vedete, de Hannequin e Weber, em 1974; Simbad, o Marujo, criação coletiva, com direção de Luis Antônio Martinez Corrêa, do Grupo Pão e Circo, em 1975; Brida, de Paulo Coelho, dirigida por Luiz Carlos Maciel, em 1992. Ao lado de sucessos e interpretações vigorosas, como em As Criadas, de Jean Genet, ao lado de Dina Sfat, em 1981; Édipo Rei, de Sófocles, com direção de Marcio Aurelio, em 1983; Amor em Campo Minado, de Dias Gomes, com o diretor Aderbal Freire Filho (Aderbal Júnior), em 1984.

Em 1964, estreou na televisão, na novela Melodia Fatal, pela TV Excelsior. Só voltaria em 1978, para estrelar O Pulo do Gato, entre outras, seguindo-se Direito de Amar (1987), Que Rei sou Eu? (1989), Pantanal (1990), Colégio Brasil (1995), A Casa das Sete Mulheres (2003) e Caminhos do Coração (2007).

No cinema, criou personagens densas e marcantes, constituindo sólida carreira, em filmes como O Bandido da Luz Vermelha (1968), O Rei da Vela (1971/1982), Guerra Conjugal (1974); Barra Pesada (1977); O Homem do Pau Brasil (1981) e Luz Del Fuego (1982). A partir dos anos 1980, tem feito muita narração para curtas-metragens. Em 1982, estreou na função de direção, num documentário sobre a colonização italiana no Sul do País, chamado In Vino Veritas. Há alguns anos foi a curadora do Festival de Cinema de Curitiba, no Paraná.

Na televisão, integrou, em períodos diversos, novelas, seriados e casos especiais, sempre com presença marcante. Dirigiu, em 1990, o documentário Índia, O Caminho dos Deuses.

Nos anos 90, começa a dedicar-se a um projeto pedagógico, dirigindo um Centro de Formação de Atores na UniverCidade.

Escreveu Oficina, Onde a Arte Não Dormia, em 1989, relatando seu período naquele grupo teatral, além de poesias e trabalhos com traduções. Voltou aos palcos em 2000, para produzir e interpretar Vassah, a Dama de Ferro, de Máximo Gorki, em grande forma.

Ítala Nandi despertou inúmeras demonstrações de afeto e reconhecimento. Uma delas foi do poeta Joaquim Cardozo, que escreveu Poema Para a Nudez de Ítala Nandi.

Filmografia

:: Filmografia como Atriz ::

2018 :: Domingo
1999 :: Ano Novo (CM)
1999 :: Sobre os Anos 1960 (CM) …. Narração
1999 :: Ano Novo (CM)
1991 :: Índia – O Caminho dos Deuses
1983 :: O Rei da Vela
1983 :: Pena Prisão (CM) (narração)
1982 :: Luz del Fuego
1982 :: In vino veritas …. Narração
1981 :: O Homem do Pau Brasil
1981 :: Amor e Traição (A Pele do Bicho)
1980 :: O Despertar da Besta
1980 :: Ave Soja, Santa Soja (CM) …. Narração
1979 :: Muito Prazer
1979 :: Amor e Traição
1977 :: O Cortiço
1977 :: Barra Pesada
1976 :: Noite sem Homem
1975 :: Pecado na Sacristia
1974 :: Guerra Conjugal
1974 :: A Cartomante
1973 :: Sagarana, o Duelo
1973 :: Os Homens que Eu Tive
1972 :: Roleta Russa
1972 :: Prata Palomares
1970 :: Pindorama
1970 :: Os Deuses e os Mortos …. Sereno
1970 :: O Ritual dos Sádicos ou O Despertar da Besta (dirigido por José Mojica Marins) …. participação especial
1970 :: Juliana do Amor Perdido
1969 :: América do Sexo
1968 :: Noite sem Homem
1968 :: O Bandido da Luz Vermelha
1966 :: Gentle Rain (EUA/Brasil)
1964 :: Não Tenha Pena de Mim (Inacabado)

:: Filmografia como Diretora ::

1990 :: Índia, O Caminho dos Deuses
1982 :: In Vino Veritas

:: Filmografia como Ela Mesma ::

2003 :: Glauber – o Filme, Labirinto do Brasil

Bibliografia

Livros:

CARDOZO, Joaquim. Poema para a nudez de Ítala Nandi. In: NANDI, Ítala. Oficina: onde a arte não dormia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 140.
NANDI, Ítala. A Mulher em Galileu Galilei. Leia, São Paulo, n. 4, 14 set. 1978. In: ______. Oficina, onde a arte não dormia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 127-129.
NANDI, Ítala. Teatro Oficina: onde a arte não dormia. : , .
SILVA NETO, Antonio Leão da. Astros e estrelas do cinema brasileiro. 2. ed. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.
VALENTINETTI, Claudio Maria. Ittala Nandi: o caminho de uma deusa. São Paulo: Giostri, 2013.

Internet:

HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO. Ítala Nandi. Disponível no endereço: http://www.historiadocinemabrasileiro.com.br/itala-nandi/

História do Cinema Brasileiro

História do Cinema Brasileiro

Qualquer interesse de envio de textos, dúvidas, opiniões, sugestões, acréscimos de conteúdo, relato de erros ou omissão de informações publicadas, entre em contato com a Coordenação Geral do História do Cinema Brasileiro pelo seguinte email: [email protected]

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