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LIVRO – O Autor no Cinema: a política dos autores: França, Brasil – Anos 1950 e 1960

Este volume não é uma simples reedição de O autor no cinema, publicado em 1994 e desde então fora de catálogo. É um livro que contém sua própria resenha; uma tese acompanhada de sua crítica. Jean-Claude Bernardet, consciente da necessidade de atualizar o debate sobre a questão do autor do filme, convidou Francis Vogner dos Reis, jovem crítico, a dialogar com ele. Trata-se de uma operação didática, do professor que nunca abandona seu ofício, e mesmo fora da sala de aula continua a exercer seu magistério. O expediente original, além de ardiloso, é funcional: a interlocução surge naturalmente do confronto de experiências de dois críticos, cuja formação se deu em tempos diferentes. A de Jean-Claude na tradicional cinefilia, que reverenciava o filme na sala escura como obra de arte e representação do mundo; a de Francis Vogner, na caótica pescaria em retrospectivas, exibições das tardes na TV, no clique ansioso de um arquivo na internet. Ao campo se opõe o contracampo.

A obra de Jean-Claude reconstitui o surgimento da “política dos autores” na Paris dos anos 1950 pelos jovens críticos entrincheirados na revista Cahiers du Cinéma. Seu objetivo era desbancar o cinema francês consagrado num confortável academicismo, sacudir a estrutura do poder para nela infiltrar-se, revelar criadores inesperados na máquina do cinema industrial norte-americano. Hitchcock, Nicholas Ray, Howard Hawks foram assim alçados à categoria de artistas-autores, para surpresa do meio profissional de onde provinham. A polêmica logo se instalaria, com a reação da crítica tradicional, mas a força de renovação dessa ideia romântica demonstrou-se inabalável. Atravessado o Atlântico, a nova matriz de pensamento se enraizaria, adaptando-se aos respectivos climas.

Nos Estados Unidos, arrebatando críticos que encontravam novos meios de se opor ao regime da indústria. No Brasil, mobilizando a crítica e os jovens que almejavam como seus colegas franceses alcançar a direção.

A pesquisa de Jean-Claude nesse capítulo é particularmente preciosa, pois reconstitui o ambiente intelectual em que se engendrava o moderno cinema brasileiro, polarizado entre o Cinema Novo de feição política e o cinema essencialista, que a negava. Apesar da feroz oposição, ambos beberam na política dos autores. A política dos autores desandou em marketing, Claude Chabrol, um de seus formuladores, reconheceu: “Fomos promovidos como uma marca de sabonete”. Naturalizou-se o conceito, o cinema dos grandes autores ganhou espaço no mercado, eles atingiram as grandes salas e os jovens cineastas ficaram isolados no gueto arte/ensaio. Para decepção dos puristas, a aura cultural tinha criado um mercado como os outros: o filme de arte é uma commodity. A exacerbação política de 1968 deslocou o centro, a arte foi substituída pela política. O primeiro a aderir ao novo paradigma foi Godard. O declínio da cinefilia correspondeu à ascensão do cinema militante. À parte o radicalismo, o cinema político preferia filmes de sucesso mesmo se artisticamente conservadores. Ao mesmo tempo, a inteligência francesa lançava um ataque mortal à autoria. Roland Barthes, em A morte do autor, afirma que a linguagem tem um sujeito, não uma pessoa, o eu que escreve é “um eu de papel”. Foucault acompanha a transição para uma linguagem em que o sujeito está excluído, mas não o autor. A inspiração vem de Mallarmé, que defendia o primado da escrita sobre o do autor, restabelecendo o papel central do leitor, no nosso caso, do espectador. Paradoxalmente, isso só vale para a indústria audiovisual. A mística do autor estava desacreditada. Seria ele um avatar do narcisismo do artista? Se o autor não tem mais potência de transformação, estaria ele morto? Esse era o estado das coisas em 1994, quando Jean-Claude concluía sua tese de doutorado.

A intervenção atual de Francis Vogner irá apelar para a nova função do conceito de autoria num sistema que perdeu sua operacionalidade. Ele foi essencial para a reorganização de uma cinefilia militante, que luta para impor parâmetros históricos, enquanto promove a revisão do panteão dos artistas.

Em contracampo, Vogner propõe a fusão entre autoria e militância em nome de sua geração. Dispensa a competência técnica, o tratamento visual do material, enquanto exalta a personalidade distintiva do autor e sua perspectiva marginal, no sistema de valores predominante na política ou na indústria. Seus heróis são Carlos Reichenbach, Mojica Marins e o Nelson Pereira da fase popular, de O amuleto de Ogum e Estrada da vida. Essa mirada está voltada para o passado. O presente fica por enquanto fora do campo. A explosão da produção de filmes em escala nacional e internacional introduziu um excesso que tenta explorar as múltiplas plataformas à disposição do espectador.

Nesse quadro, que função terá a cinefilia autoral? Aproveitando-se da decadência de Hollywood, a TV se reinventa com a produção seriada, ancorada em forte dramaturgia. No seu peculiar modo de produção, restitui o conceito de “autor” da era dos estúdios. O produtor /roteirista é o atual showrunner. O papel do autor volta a predominar na indústria. (Carlos Augusto Calil)

Dados Técnicos

Autores: Jean-Claude Bernardet | Francis Vogner dos Reis
Editora: Edições Sesc
Ano da Edição: 2018
Encadernação: Brochura | 23 x 15.4 x 2 cm | 272 páginas
ISBN: 978-8594931108

História do Cinema Brasileiro

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