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Thiago Moyses

Thiago Moysés, cineasta brasiliense, entrou na seleta lista com Síndrome de Pinnochio — Refluxo, um filme surrealista inspirado em Kafka. Não se pode nem dizer que seu azarão é de baixo orçamento. Custou míseros R$ 2 mil. Com seu trabalho, ele avança em um território de fabulosas superproduções nacionais já com bandeira da vitória hasteada.

Do sonho veio a realidade, ou o contrário? Thiago aponta o primeiro registro de Síndrome de Pinnochio para a adolescência. Tinha 17 anos, e vislumbrava com seriedade a carreira como cineasta. Pensava em roteiros. Anos depois, já com passos na trilha do cinema, um sonho trouxe de volta a ideia antiga. Hoje, o filme sonhado disputa lado a lado com candidatos poderosos à vaga para o Oscar, como o também brasiliense Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte; Jean Charles, com o badalado Selton Mello no papel do protagonista; Budapeste, dirigido por Walter Carvalho; ou o mais cotado Besouro, de João Daniel Tikhomiroff. Para Moysés, tudo ainda não soa completamente real. Ou palpável.

“Não estou nem cogitando ser selecionado”, desvia o cineasta, um dos faz-tudo da produtora I-mage. “A ficha está caindo devagarinho. Fico preocupado em dar entrevista. Posso falar alguma coisa errada.” A atenção da mídia é novidade, mas o discurso demonstra solidez. Thiago raramente se refere à primeira pessoa — mesmo no que diz respeito ao filme. Usa sempre o “nós” para destacar o trabalho coletivo da I-mage.

Em Síndrome de Pinnochio — Refluxo ele assina diversos cargos. É diretor, produtor, montador, roteirista e diretor de fotografia. A atuação em múltiplas funções é mais que uma adaptação para questões essenciais do cinema independente, como baixo orçamento, falta de equipe. É filosofia que segue na profissão. A ideia conecta dois momentos. Um deles aos 5 anos, quando o pai posicionava Thiago em frente da tevê para se distrair com os filmes de Alfred Hitchcock. O mestre do suspense, relembra o diretor, conhecia com profundidade todas as etapas de produção de uma obra da sétima arte. Daí a inspiração.

“Fui diretor de arte, de fotografia, técnico de som, montador. Cometendo erros e acertos — muitos erros —, fiz de tudo”, enumera. Até dublar personagem quando foi necessário ele topou. Explica o estilo mil e uma utilidades: “Posso ter controle da minha obra respeitando os outros artistas”. O outro momento corresponde ao período da faculdade. Thiago estudou cinema na Universidade de Brasília (UnB). “Sempre refleti sobre as coisas, não só mastigava.” Uma das rupturas que fundamenta sua forma de pensar cinema foi a dissociação dos autores das ideias. Ou seja, o que interessa a Thiago é o quê — ou o conteúdo — e não quem olha por trás da câmera.

Entre os temas que defende estão cinema digital como obra de arte e a redução dos abusos nos orçamentos da indústria. “A gente tem certeza de que existe um superfaturamento absurdo. Até Hollywood gasta US$ 3 milhões e (depois) demite roteirista!”, compara. “Fizemos um filme de R$ 2 mil que normalmente custaria R$ 200 mil. Não foi filmado em condições ideais, mas está pronto”. Ele disseca a rotina estabelecida com minúcia pela I-mage. “Não filmamos mais do que oito horas por dia e fazemos 10 tomadas, 50 a 70 planos nesse tempo. O segredo é uma decupagem precisa, uma planilha completa e decidir tudo antes.” Continua: “Também não faz sentido ter hoje 100 pessoas em um set.”

O objetivo da aceleração do processo é inclusive pessoal. Thiago quer filmar dois roteiros por ano, para manter um fluxo constante de orçamento e produção. “O cinema é meu ofício. Não vou ser outra coisa. Não faz sentido nenhum”, ressalva. “Há cinco meses vivo disso. É possível”, garante. No próximo filme, mais um desafio — dentre tantos que já se incorporaram ao dia a dia da “independência”: ele quer experimentar a função de operador de câmera e, dessa maneira, aprimorar e compreender um pouco mais do universo da direção de fotografia.

Ascensão rápida

Thiago considera o curta Fobia (2003), em 16 milímetros, como a estreia na trajetória de cineasta. O filme rodou por festivais de Brasília, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. Ganhou o segundo lugar na escolha do júri popular no Cine Esquema Novo — Festival de Cinema de Porto Alegre. O melhor desempenho da carreira até então.

Síndrome de Pinnochio — Refluxo representa um furacão não só pela candidatura à vaga quase que acidental. O filme teve vários capítulos que o ameçaram de reclusão na gaveta. Do abandono do ator escalado para o personagem principal três dias antes de começarem as filmagens até a falta de orçamento para a produção, que só contava com o trunfo do equipamento próprio — o que evitou o gasto com aluguel.

A primeira exibição do filme mostrou na tela praticamente um rascunho do que seria a versão final. Depois da sessão no FicBrasília do ano passado, Síndrome de Pinnochio passou por nova montagem e corte. A versão que ocupou por 20 dias a sala 10 do Cine Academia tem 90 minutos (mais de 40 a menos do que a da preestreia). Pausa para mais uma historinha: num voo turbulento para São Paulo, Thiago sentou ao lado de uma pessoa do marketing de uma operadora de celular que justamente procurava um filme para patrocinar.

A coincidência resultou na promoção de Síndrome de Pinnochio — Refluxo. E graças ao contato feito no ar durante uma tempestade Thiago completou os requisitos para a candidatura à vaga na pré-seleção. O resultado será divulgado no próximo dia 18, no Rio de Janeiro. “Nossa produção secreta — porque a gente produz muito, sai dessa camuflagem. Sai das escuras. Aparece visivelmente”, comemora Thiago. Ele respira e cria fôlego para a próxima jogada.

História do Cinema Brasileiro

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